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QUANDO COMEÇA A DESIGUALDADE EDUCACIONAL NO BRASIL?

há 6 horas
5 min de leitura

A desigualdade educacional no Brasil não começa na alfabetização. Aos 5 anos, antes de qualquer criança pisar no 1º ano, já conseguimos medir de que forma ela se manifesta.


É o que mostra o IELS, sigla para International Early Learning and Child Well-being Study, é um estudo internacional que avaliou 2.598 crianças de 5 anos no Ceará, no Pará e em São Paulo, com resultados publicados em maio de 2026.


𝗤𝘂𝗲 𝗲𝘀𝘁𝘂𝗱𝗼 é 𝗲𝘀𝘀𝗲?


O IELS é um estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) feito para comparar como as crianças pequenas se desenvolvem em diferentes países. O Brasil entrou no segundo ciclo, ao lado de Bélgica, China, Coreia do Sul, Holanda, Malta, Inglaterra e outros.


Aqui, foi conduzido por uma coalizão liderada pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, com parceria técnica da UFRJ. Foram 210 escolas em três Estados e os resultados saíram em maio de 2026. O Brasil foi o único país a olhar os dados por cor e raça.


Para a coleta de dados, cada criança fez quatro atividades curtas, em dois dias, com histórias e jogos num tablet, respeitando o ritmo de cada uma delas. Além disso, educadoras e as famílias responderam questionários à parte.


Os resultados vêm em pontos, com 500 sendo a média internacional enquanto o estudo oferece uma régua simples para entender o que os números querem dizer: cada 100 pontos equivalem, mais ou menos, a um ano de aprendizagem.


𝗢 𝗾𝘂𝗲 𝗳𝗼𝗶 𝗺𝗲𝗱𝗶𝗱𝗼


Dez habilidades, em três grupos:


𝗢 𝗾𝘂𝗲 𝘃𝗲𝗺 𝗮𝗻𝘁𝗲𝘀 𝗱𝗲 𝗹𝗲𝗿 𝗲 𝗲𝘀𝗰𝗿𝗲𝘃𝗲𝗿 – Falar, escutar, contar história, entender que aquele risco na página quer dizer alguma coisa. O estudo chama de 𝗹𝗶𝘁𝗲𝗿𝗮𝗰𝗶𝗮 𝗲𝗺𝗲𝗿𝗴𝗲𝗻𝘁𝗲, e o relatório liga isso diretamente ao campo "Escuta, fala, pensamento e imaginação", da BNCC.


𝗢 𝗾𝘂𝗲 𝘃𝗲𝗺 𝗮𝗻𝘁𝗲𝘀 𝗱𝗮 𝗺𝗮𝘁𝗲𝗺á𝘁𝗶𝗰𝗮 – Contar, comparar quantidades, perceber formas, saber o que é antes e depois, perto e longe. É a 𝗻𝘂𝗺𝗲𝗿𝗮𝗰𝗶𝗮 𝗲𝗺𝗲𝗿𝗴𝗲𝗻𝘁𝗲, ligada ao campo "Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações".


𝗢 𝗾𝘂𝗲 𝘀𝘂𝘀𝘁𝗲𝗻𝘁𝗮 𝗮𝘀 𝗱𝘂𝗮𝘀 𝗰𝗼𝗶𝘀𝗮𝘀 – Segurar uma informação na cabeça enquanto faz outra. Esperar a vez em vez de responder no impulso. Trocar de regra quando o jogo muda. Mais a leitura das emoções — reconhecer o que o outro sente e por quê.


𝗨𝗺𝗮 𝗿𝗲𝘀𝘀𝗮𝗹𝘃𝗮 𝗾𝘂𝗲 𝗼 𝗽𝗿ó𝗽𝗿𝗶𝗼 𝗿𝗲𝗹𝗮𝘁ó𝗿𝗶𝗼 𝗳𝗮𝘇: na Educação Infantil, todos esses campos de experiência devem ser trabalhados juntos, nunca como diferentes "compartimentos" de uma criança.


𝗖𝗶𝗻𝗰𝗼 𝗽𝗼𝗻𝘁𝗼𝘀 𝗾𝘂𝗲 𝗺𝗲𝗿𝗲𝗰𝗲𝗺 𝘀𝘂𝗮 𝗮𝘁𝗲𝗻çã𝗼 (𝗲 𝗾𝘂𝗲 𝘃𝗼𝗰ê 𝘃𝗲𝗿á 𝗮 𝘀𝗲𝗴𝘂𝗶𝗿)


• A desigualdade entre crianças ricas e pobres já está inteira aos 5 anos.

• O Brasil vai bem nas palavras e mal nos números.

• As habilidades que sustentam as duas coisas estão abaixo da média.

• A leitura em casa é a maior distância entre o Brasil e o mundo.

• Onde o Brasil investiu, o resultado apareceu e a desigualdade encolheu.


Os quatro primeiros descrevem um problema. O quinto explica os quatro.


𝗔 𝗱𝗲𝘀𝗶𝗴𝘂𝗮𝗹𝗱𝗮𝗱𝗲 𝗻ã𝗼 𝘁𝗲𝗺 𝗱𝗲𝗴𝗿𝗮𝘂, 𝘁𝗲𝗺 𝗿𝗮𝗺𝗽𝗮


O estudo dividiu as crianças em quatro grupos, do mais pobre ao mais rico. As médias sobem de forma contínua, do primeiro ao último.


Entre o grupo mais pobre e o mais rico, a distância é de cerca de quatro meses de aprendizagem nas palavras. Nos números, de seis meses e quando as desigualdades se somam, a conta cresce. Comparando meninos pretos, pardos ou indígenas do grupo mais pobre com meninos brancos do grupo mais rico, o estudo encontra quase um ano de diferença em matemática – entre crianças da mesma idade, na mesma etapa, antes de qualquer uma delas entrar no 1º ano.


𝗣𝗼𝗿 𝗾𝘂𝗲 𝗮 𝗱𝗶𝘀𝘁â𝗻𝗰𝗶𝗮 𝗻𝗼𝘀 𝗻ú𝗺𝗲𝗿𝗼𝘀 é 𝗾𝘂𝗮𝘀𝗲 𝗼 𝗱𝗼𝗯𝗿𝗼 𝗱𝗮 𝗱𝗶𝘀𝘁â𝗻𝗰𝗶𝗮 𝗻𝗮𝘀 𝗽𝗮𝗹𝗮𝘃𝗿𝗮𝘀?


O que a rotina oferece é o que a criança aprende. Nas palavras, o Brasil fez 502 pontos, dois acima da média internacional. Nos números, 456: quarenta e quatro pontos abaixo, e com a maior diferença entre crianças de todo o estudo.


Aqui o estudo fica mais útil para quem está na sala. Se a criança constrói uma narrativa inteira e trava em comparar tamanhos, a explicação mais provável não é aptidão, porém que a rotina de educação oferece muito mais uma coisa do que da outra.


Sempre escutamos sobre rodas de história, leitura diária, músicas infantis, brincadeiras de nomeação. Na contramão, atividades direcionadas para o reconhecimento espacial e numérico ganham menos destaque: comparar tamanhos ao guardar os materiais, perceber quanto tempo dura uma atividade, mapear o caminho até o pátio.


𝗔 𝗱𝗶𝗳𝗲𝗿𝗲𝗻ç𝗮 𝗲𝗻𝘁𝗿𝗲 𝗮𝘀 𝗱𝘂𝗮𝘀 𝗹𝗶𝘀𝘁𝗮𝘀 𝗻ã𝗼 é 𝗼 𝗰𝗼𝗻𝘁𝗲ú𝗱𝗼. É 𝗼 𝗽𝗹𝗮𝗻𝗲𝗷𝗮𝗺𝗲𝗻𝘁𝗼.


Abaixo das palavras e dos números tem uma terceira camada, e é nela que o Brasil vai pior. Nas três habilidades que sustentam qualquer aprendizagem (segurar informação, controlar o impulso e mudar de regra), o país ficou abaixo da média internacional em todas.


Entre todas as ligações que o estudo mediu entre áreas diferentes do desenvolvimento, a mais forte é a da memória de trabalho com a literacia e com a numeracia, ou seja, é a habilidade de segurar uma informação e operar com ela que anda junto com o desempenho nas outras duas.


O relatório descreve o que essa base sustenta no dia a dia: manter a atenção na atividade, lembrar a instrução, acompanhar a explicação da professora, seguir engajado numa tarefa que exige esforço. Quando ela falha, a criança perde o fio de uma história longa, ou não acompanha um comando mais simples.


Entre as recomendações do IELS para as escolas estão jogos com regras, resolução de problemas e alternância de turnos. Traduzindo para exemplos na rotina, isso pode aparecer na oferta de jogos variados, em experiências investigativas que instiguem as crianças a fazerem descobertas, no convite para a resolução de problemas cotidianos e no exercício de fala e escuta em uma roda.


𝗔 𝗽𝗮𝗿𝘁𝗲 𝗾𝘂𝗲 𝗻ã𝗼 𝘃𝗲𝗺 𝗱𝗮 𝗲𝘀𝗰𝗼𝗹𝗮


E fora da escola? O estudo mediu com que frequência as famílias fazem atividades com as crianças. A maior distância entre o Brasil e o mundo, de todas, é a leitura.


Na média internacional, 53,9% das famílias leem para a criança três ou mais vezes por semana. No Brasil, 14,4%. As outras diferenças existem, mas são muito menores, como é o caso de conversar sobre sentimentos, cantar, brincar com letras.


Inclusive, o estudo testou isso na prática: mesmo comparando famílias de mesma condição social, as crianças de casas onde se lê mais vão melhor. O efeito é pequeno mas é real, ler em casa é uma prática fundamental para a criança.


Vale ressaltar o contrário, também: empurrar para as famílias a conta de um resultado de sistema é um movimento que os dados e o próprio estudo não sustentam.


𝗢𝗻𝗱𝗲 𝗵𝗼𝘂𝘃𝗲 𝗽𝗼𝗹í𝘁𝗶𝗰𝗮 𝗽ú𝗯𝗹𝗶𝗰𝗮, 𝗵𝗼𝘂𝘃𝗲 𝗿𝗲𝘀𝘂𝗹𝘁𝗮𝗱𝗼 𝗲 𝗵𝗼𝘂𝘃𝗲 𝗲𝗾𝘂𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲


Os quatro pontos anteriores descrevem buracos. O quinto mostra o que os preenche, melhora e evita.


O Brasil chega perto da média internacional em três das dez habilidades medidas: a linguagem e as duas de leitura das emoções. E são exatamente essas três as de menor desigualdade entre crianças ricas e pobres em todo o estudo.


A habilidade mais equalizada do Brasil é justamente aquela em que o país sustentou política por mais tempo. Formação continuada de professoras. Materiais de leitura. Programas de alfabetização. A pré-escola, que passou de 91,3% de cobertura em 2016 para 94,6% em 2024.


A desigualdade que aparece nos números e nas funções executivas não é a marca do que a pobreza faz com as crianças, é a marca do que acontece quando a política pública não chega ali.


𝗢 𝗾𝘂𝗲 𝗮 𝗭𝗲𝗹𝗼 𝗽𝗲𝗻𝘀𝗮 𝘀𝗼𝗯𝗿𝗲 𝗶𝘀𝘀𝗼


O IELS não descreve dez habilidades, descreve uma criança inteira, medida através dos diferentes aspectos da educação.


Aquele quase um ano de diferença entre dois meninos da mesma idade é um sintoma que mistura renda, território, raça e oferta educacional, que acabam por se acumular sobre a mesma criança.


O que o estudo entrega a quem planeja não é uma lista de conteúdos a corrigir, mas, sim uma prova de que a desigualdade que o Brasil discute em todo o sistema de ensino (e posterior a ele) já está montada aos 5 anos de idade. E de que ela recua onde a decisão pública alcança.

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