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O QUE EU ESCUTO QUANDO ESCUTO UMA EDUCADORA?

  • 19 de mar.
  • 3 min de leitura

Quero compartilhar uma reflexão sobre um tema que tem me acompanhado há muito tempo: o que, de fato, escutamos quando escutamos uma educadora?


Se há algo que atravessa qualquer trabalho sério com a Educação Infantil, é a escuta. E aqui, quando falo em “educadoras”, falo de forma ampliada: professoras, professores, gestoras escolares, coordenadoras, diretoras, técnicas e gestoras das Secretarias. Todas aquelas que, de diferentes lugares, sustentam o cotidiano da creche e da pré-escola.


Escutar não é um ato pontual: é uma postura.

Escutar no cotidiano.

Escutar nas reuniões.

Escutar nos corredores e nas salas de referência.

Escutar sem julgar e sem oferecer respostas prontas.

Escutar como gesto ético e pedagógico.


Mas afinal, o que se escuta quando se escuta uma educadora?


Escuta-se, primeiro, a própria história da Educação Infantil brasileira.


Uma história ainda marcada por ambiguidades persistentes:


– a desvalorização da creche em relação a outras etapas da educação básica;

– a falsa separação entre cuidar e educar, como se o cuidado não fosse profundamente educativo;

– a ideia de que quem troca fraldas sabe menos do que quem ensina o alfabeto;

– a busca constante por uma identidade profissional que dê nome, sentido e dignidade ao que se faz todos os dias e que se sente no corpo.


Quando escuto uma educadora, escuto também sua história pessoal.


Cada uma chega à Educação Infantil como a mulher que é, mas também como o bebê que foi. A forma como foi cuidada, o que recebeu ou deixou de receber, as crenças que aprendeu, os medos que carrega, as marcas que ficaram. Tudo isso atravessa o modo como ela cuida, interpreta o choro, acolhe o silêncio, oferece o toque, organiza o tempo da criança. Isso raramente aparece nos documentos oficiais. Mas aparece no olhar e o olhar educa.

Ao escutar uma educadora, escuto ainda seus anseios profissionais. Os sonhos de fazer melhor. As expectativas de reconhecimento. O desejo de aprofundar saberes.


Mas escuto também as inseguranças, o medo de não dar conta, a sensação de pouco apoio. Escuto, com muita força, as tensões da relação com as famílias — porque compartilhar o cuidado e a educação de um bebê/criança exige confiança, diálogo e tempo. E nem sempre há condições reais para sustentar esse processo como ele precisa ser.

E quando escuto uma educadora, escuto algo que vai além dela. Escuto a instituição. Escuto a rede. Escuto a política pública.


Escuto as dificuldades concretas: falta de profissionais, espaços que precisam de investimento, legislações desatualizadas, heranças culturais que insistem em permanecer.

Muitas vezes, essas questões não existem por falta de compromisso de quem está na gestão, mas por entraves estruturais muito mais complexos.

Uma escola nunca fala sozinha. Por trás de cada professora e de cada gestora, há uma política pública que as sustenta ou as limita.


Por isso, escutar não é apenas ouvir. Escutar é reconhecer. É legitimar saberes que não cabem facilmente em indicadores. É convidar à análise com sensibilidade e rigor. É construir caminhos possíveis, que façam sentido para quem está, às sete da manhã, com um grupo de bebês/crianças que a observa atentamente.


E algo se repete sempre que a escuta é verdadeira:


Quando uma educadora é escutada, ela se reorganiza por dentro. Ela se reconhece como parte da política, e não apenas como sua executora. Ela passa a perceber que sua prática tem valor, que seu olhar é técnico, que sua experiência importa. E quando isso acontece, a escola muda. Não por decreto. Não por pressão externa. Mas porque os profissionais da ponta passam a se sentir responsáveis e autores.


Por tudo isso, sustento uma convicção: nada muda na primeira infância sem mudar, antes, o modo como escutamos quem cuida dela.


Quando escuto uma educadora, não escuto apenas uma pessoa. Escuto uma rede. Escuto a história da Educação Infantil no Brasil. Escuto as famílias. Escuto os bebês e crianças, porque, muitas vezes, é a educadora quem empresta sua voz àquilo que elas ainda não conseguem dizer.


Talvez, então, a pergunta mais importante não seja: “O que falta?” Mas sim: “O que já existe e ainda não foi ouvido?”


Autora: Gabriela Dal Forno Martins - diretora da Zelo Consultoria

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