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Abordagem pikleriana: sempre bom refletir um pouco mais


A abordagem pikleriana, desde a fundação da Zelo Consultoria, em 2012, tem se constituído como uma importante, embora não exclusiva, inspiração teórico-metodológica de nosso trabalho. Ainda que, eventualmente, ofereçamos cursos e workshops específicos sobre a abordagem, essa não tem sido uma prática comum, já que priorizamos trabalhar com temáticas que reflitam demandas e especificidades da Educação Infantil (ex. interações entre crianças e adultos, processos de desenvolvimento e aprendizagem das crianças, espaços e tempos na Educação Infantil, relação família e escola), abordando-as a partir de diferentes inspirações teóricas, dentre elas, a abordagem pikleriana.


De qualquer modo, no contexto das formações por nós realizadas, chegam muitas dúvidas sobre a abordagem e, até mesmo, ideias equivocadas e distorcidas. Por isso, resolvemos escrever esse pequeno texto, visando clarear algumas dessas questões. Gabriela Dal Forno Martins, diretora da Zelo, respondeu um conjunto de perguntas que refletem essas dúvidas.


1) O que é a abordagem Pikler? Quais são seus principais conceitos?


A abordagem pikleriana é, antes de tudo, uma forma de ver o bebê e, a partir disso, organizar um cotidiano que atenda suas necessidades essenciais e promova seu desenvolvimento. Foi desenvolvida pela pediatra Emmi Pikler, na Hungria, ao longo de sua trajetória profissional e, se consolidou, em especial, na ocasião em que a mesma assumiu a direção de um abrigo após a segunda guerra mundial. Pikler, inspirada em autores que destacavam as competências do bebê e também suas necessidades muito particulares, propôs uma organização para os cuidados coletivos que buscava enfrentar muitos problemas daquela época, principalmente as doenças psíquicas produzidas nos bebês em função dos cuidados de baixíssima qualidade.


Assim, uma de suas principais ideias refere-se à centralidade das relações íntimas, personalizadas e estáveis entre o adulto e cada bebê, ainda que em contextos coletivos. Essas relações permitem não só que se devolvam vínculos seguros, como também que o bebê possa conhecer a si mesmo através do olhar cuidadoso e empático de um adulto que lhe confere sentido a sua existência, através especialmente da comunicação verbal e não verbal. Além disso, Pikler acreditava que, tendo sido satisfeita essa necessidade de uma relação íntima, o bebê também seria capaz de sentir-se bem consigo mesmo nos momentos em que estivesse em atividade livre autônoma, brincando com o próprio corpo ou com objetos do entorno. A pediatra conferiu extrema importância para os momentos de brincar autônomo do bebê, em um ambiente físico cuidadosamente preparado, com objetos interessantes e acessíveis e em segurança.


2) Quais os benefícios de aplicá-la na Educação Infantil? Quais vantagens para as crianças e para a própria escola?


É preciso ter cautela com a ideia de "aplicar" diretamente a abordagem na Educação Infantil. O importante é apreender com muita clareza seus princípios, mais do que preocupar-se excessivamente com técnicas ou mobiliários que são utilizados no Instituto Pikler, em Budapeste (que hoje funciona como uma creche que atende crianças de 0 a 3 anos). Não estamos falando de uma metodologia propriamente dita, mas muito mais de uma filosofia, uma forma de ver o bebê e de respeitar aquilo que lhe é mais essencial: a necessidade de ser visto e cuidado por um adulto interessado, empático e que também é capaz de aceitar que nem sempre o bebê precisa do adulto para ter uma experiência de aprendizagem rica. Isso é o mais importante da abordagem e, sem dúvida, pode contribuir muito para pensar a organização pedagógica dos berçários e maternais na Educação Infantil.


Temos, no Brasil, uma tendência muito forte por desqualificar os momentos de interação individual entre um adulto e um bebê nas nossas escolas (momentos de cuidado). Ainda hoje trocar fraldas, alimentar, limpar um nariz são vistas como atividades menos nobres e de baixo valor educativo. Emmi Pikler vem questionar diretamente essa máxima. Além disso, por outro lado, também o brincar livre e autônomo não tem recebido o merecido valor em nossas escolas, uma vez que nós, adultos, tendemos a atribuir valor pedagógico somente àquilo que nós propusemos de forma diretiva às crianças (as chamadas atividades dirigidas). Penso que a abordagem pikleriana vem compor um conjunto de conhecimentos, que não são novos no nosso país, e que vêm mostrando que o trabalho com bebês é muito específico e diferente das demais faixas etárias. Temos vários pesquisadores brasileiros que há muito tempo defendem esses aspectos, precisamos agora é reunir forças e argumentos para de fato transformar o cotidiano escolar.


3) E para as famílias? Há vantagens em trabalhar com essa abordagem dentro dos lares também? Quais são elas?


Sim, Emmi Pikler iniciou seu trabalho junto às famílias, antes de assumir a direção do abrigo. O trabalho com a abordagem junto às famílias deve ser ainda mais cuidadoso, de modo que não se torne algo prescritivo e normatizador. Há muitas formas de criar um bebê e isso se relaciona com os valores culturais da família, com as crenças dos cuidadores, com seus sentimentos, etc. É muito perigoso criar um "manual pikleriano", até porque isso nada tem a ver com a própria filosofia, que é, antes de mais nada, uma filosofia do respeito. Atualmente, a perspectiva de trabalho com as famílias visa dar oportunidade para que as famílias possam ver o bebê de outra forma e, a partir disso, refletirem sobre suas práticas. Damos oportunidade para os pais observarem seus bebês em atividade livre, com objetos simples, mas que possibilitam diversas criações, construções. Assim, os pais podem surpreender-se com as competências de seus filhos e, talvez, valorizarem mais essas experiências.

4) Como aplicar essa abordagem em uma escola? Quais mudanças são necessárias na estrutura, nas aulas e no corpo docente?


Como qualquer transformação em âmbito escolar, o trabalho com a abordagem pikleriana requer uma atuação em múltiplos níveis. Embora os princípios da abordagem sejam relativamente simples, quando bem compreendidos, implicam em mudanças diversas: mudanças internas nos adultos; mudanças na estrutura física e de rotina da escola; demandam muita comunicação com a família visando esclarecer as mudanças efetuadas; assim como um trabalho de gestão que apoie todas essas transformações. Por isso, além da formação continuada dos professores e educadores que atuam diretamente com as crianças, é imprescindível um apoio à gestão para planejar alterações físicas e de organização do tempo da escola, repensar processos ligados à alimentação, adaptação das crianças, acolhimento das famílias, etc. Por exemplo, em um berçário inspirado na abordagem pikleriana, faz-se muito esforço para que a alimentação seja individualizada, para que as trocas de fralda e roupas não sejam apressadas, para que os bebês consigam brincar com riqueza e autonomia, a partir de seus próprios interesses. De fato, a abordagem nos convida a pensar em uma outra forma de ser escola para os bebês e crianças bem pequenas.


5) Nas casas, quais atividades e ações mães e pais devem propor para garantir essa abordagem no cotidiano das crianças?


Como já explicitado, a abordagem não propõe atividades específicas a serem feitas com os bebês. Se os pais estão interessados em buscar alguma inspiração na abordagem, poderiam valorizar muito os momentos em que estão cuidando do corpo do bebê, uma vez que esses cuidados são também cuidados psíquicos, como já bem pontuado por outro pediatra chamado Donald Winnicott. Além disso, também poderiam valorizar os momentos em que o bebê demostra ter interesses próprios e deixar o bebê realizar suas ações e construções com mais liberdade. O bebê humano tem interesses muito perspicazes por coisas que nós, adultos, às vezes, desvalorizamos (basta lembrar do papel do presente, que lhe interessa mais do que o próprio presente). Dar valor a isso já é um excelente começo!



Gabriela Dal Forno Martins é Sócia-fundadora da Zelo Consultoria em Educação e Desenvolvimento Infantil. Além disso, atua como assessora pedagógica junto ao Colégio Farroupilha, de Porto Alegre/RS e é pesquisadora colaboradora na agenda da primeira infância junto ao Lepes - USP Ribeirão Preto (Laboratório de Estudos e Pesquisas em Economia Social). Durante seu doutorado (2010-2014), foi cocriadora e coordenadora executiva do projeto de pesquisa “Impacto da creche no desenvolvimento socioemocional e cognitivo infantil: Estudo longitudinal do sexto mês de vida do bebê ao final dos anos pré-escolares, 2010-2016” – CRESCI (Piccinini et al., 2016). Já em seu pós-doutorado desenvolveu a pesquisa “Princípios norteadores da atuação na Educação Infantil na perspectiva da Educação Inclusiva” e liderou a produção do livro “Infância e inclusão: princípios inspiradores da atuação na Educação Infantil”, publicado em 2019. Nos últimos anos, realizou missões de estudos e visitas técnicas em escolas e instituições voltadas à primeira infância de Portugal, Suécia, Itália, Alemanha, Hungria e Equador, incluindo as escolas municipais de Reggio Emilia, o Instituto Pikler e a Fundação Amigos da Vida (AMI). É membro da Rede Pikler Brasil e representa a Zelo Consultoria junto à Rede Nacional Primeira Infância (RNPI).


Quer saber mais sobre a abordagem pikleriana? Conheça o site da Rede Pikler Brasil: https://pikler.com.br/